Dume:
o Vale Sagrado da Protoportugalidade
Pensar o território é pensar a própria condição humana. Antes de ser Estado, povo ou identidade, a experiência coletiva enraíza‑se num espaço concreto: uma veiga, uma colina, um rio, um mosteiro ou uma estrada. É aí que a existência se verte em memória e que a história toma forma. Por isso, iniciar um ciclo de reflexões sobre território em Dume não é um gesto arbitrário: é um regresso às fontes profundas de uma identidade que, séculos mais tarde, daria lugar a Portugal.
Há cerca de uma década, em Dume, o historiador galego Ramón Villares deteve‑se diante da pedra tumular de S. Martinho e, com as mãos suspensas, olhou-me e afirmou com solenidade: “Foi aqui que tudo começou.” Não se referia à fundação política do reino português, mas ao embrião espiritual, cultural e institucional que o tornaria possível em 24 de junho de 1128.
Esta leitura é partilhada por autores como José Mattoso e, de forma particularmente luminosa, por Lúcio Craveiro da Silva, que descreveu uma nação latente como um processo longo – uma corrente subterrânea de preparação da semente da nacionalidade – que teve no Reino Suevo e na intervenção reformista de S. Martinho de Dume um dos seus mais sólidos alicerces.
Os Suevos, originários da região entre os rios Elba e Oder nas atuais Alemanha e Polónia, atravessaram a Gália e entraram na Península Ibérica em 409. Era uma população minoritária face aos hispano-romanos, mas estruturada para transformar a província romana da Galécia (ou Calécia) num reino autónomo que prevaleceu durante cerca de 170 anos como a primeira entidade política estável do Ocidente pós-romano, tendo como primeira capital Bracara. Esse reino – correspondente às atuais regiões do Norte e da Galiza – tornou‑se um cadinho identitário pelo cruzamento entre romanidade, germanidade e cristianismo.
Martinho (518 - 579), vindo da Panónia, monge peregrino do Oriente e estudioso dos mundos grego e latino, foi bispo de Dume e Arcebispo de Braga (562 - 579), converteu o rei Teodemiro ao catolicismo e moldou a matriz cultural e eclesiástica da antiga Calécia. Estruturou os primeiros elementos de continuidade que permitem compreender a longa transição da Antiguidade para a Idade Média neste território, tendo sido consagrado pela Igreja e pelo povo com a santidade. Teve um papel fulcral enquanto unificador de povos distintos (romanos, suevos e galaicos), através da sua ação reformadora moral e disciplinar, da produção de obras canónicas ascéticas e morais (De Correctione Rusticorum / Correção dos Rústicos, é a mais famosa) e da organização de concílios (Braga 561 e 572), que moldaram o combate às principais heresias então presentes no Noroeste Peninsular, especialmente o priscilianismo e o arianismo. É também responsável pela singular designação dos dias da semana que distingue o português no conjunto das línguas europeias. Criou e fortaleceu instituições religiosas e estruturas administrativas, influenciando profundamente a Igreja bracarense, nomeadamente o aparecimento de paróquias, estabelecendo normas e limites destas células territoriais. Mais tarde a historiografia chamou Parochiale Suevorum – a esta organização territorial embrionária das paróquias medievais estruturantes do futuro Condado Portucalense. Como defende Luis Fontes, um dos maiores estudiosos de Dume, os Suevos permaneceram surpreendentemente negligenciados na nossa História.
Em Dume, os vestígios da presença sueva são os mais importantes da Península, apesar de limitados às ruínas do Mosteiro (séc. VI) onde são visíveis fundações arquitetónicas e estruturas conventuais, sobrepostas a testemunhos romanos, nomeadamente de uma villa e de um balneário de planta octogonal (sécs. III - IV). A sua visitação é dificultada por tudo isto se encontrar debaixo da atual igreja paroquial (sécs. XVII – XVIII) e uma envolvente marcada por um urbanismo pouco respeitador. Este património é complementado com achados arqueológicos, incluindo cerâmica e fragmentos litúrgicos, e o já referido sarcófago do fundador. O extenso repertório de escritos de Martinho é preservado em cópias medievais, em mosteiros e bibliotecas europeias.
A centenas de metros do Mosteiro de Dume, está Montélios, local maior da subsequente presença visigótica em Portugal, da arquitetura paleocristã e corpus delicti do conflito entre as dioceses de Braga e Santiago, no séc. XII, que também havia de impulsionar a vontade de autonomia dos portucalenses. Assim, esta veiga, nas portas Norte de Braga, hoje marcada pela forte presença de infraestruturas desportivas, alberga um conjunto patrimonial histórico e simbólico único – o Mosteiro de Dume e o Mausoléu de S. Frutuoso – sendo merecedora da classificação de Vale Sagrado, numa analogia bonita e complementar do altar da fundação da nacionalidade – a Colina Sagrada de Guimarães.
Preservar e reabilitar Dume será iluminar um dos berços da nossa identidade, estudando-o e reconhecendo-o como um dos mais antigos e importantes espaços civilizacionais do território português.
ANTÓNIO M. CUNHA
Universidade do Minho